Mensagen da Patrícia Canneti
Oi Ana,
Gostaria de responder ao seu comentário em relação a assinar o Canal para ter o seu material publicado, pois essa é a relação natural que as pessoas fazem, por estarmos acostumados a esse padrão comercial, do toma lá - da cá.
Mas a assinatura do Canal se vincula mais ao recebimento dos e-nformes e a manutenção de sua existência, do que a publicação do material enviado. Veja o que está escrito no sítio na página Assine o Canal:
E o que eu ganho com isso? A permanência e o desenvolvimento dessa comunidade digital independente com alcance local e global.
Acredito sinceramente que essa independência conseguida através do suporte da própria comunidade é o único antídoto possível para podermos agir com mais liberdade dentro do sistema. Mesmo que venhamos a partir de agora a negociar com anunciantes e patrocinadores, o fazemos de um outro lugar. Um lugar construído por um genuíno interesse coletivo. Partimos de uma necessidade real de comunicação e troca; e é a partir dela que as pessoas botam a mão no bolso. (É claro que muitos ainda não acreditam no Canal e só o farão quando o institucionalizarmos com um logotipo de uma empresa - trata-se de um vício profissional!)
Mesmo passando a ter anunciantes e patrocinadores, precisamos continuar a fortalecer o investimento feito pela comunidade, pois é nesse contexto que vamos poder transformar a relação com os grandões. Já negociando com um patrocinador poderoso como a Petrobras, é possível perceber a diferença de postura, um certo respeito pelos 500 assinantes do Canal Contemporâneo. É como se nos tornássemos visíveis para eles a partir dessa participação quantificada. São pessoas que só sabem lidar com números e essa é uma forma de traduzir para eles a nossa importância (nossa mesmo e não a que eles querem que tenhamos). * [poder introjetado]
Vamos ver na prática o que virá...
Um abraço,
Patricia Canetti
Minha resposta a Patrícia:
Ola Patrícia,
Eu só queria comentar algumas coisas sobre a sua última mensagem. Você diz que:
Acredita “sinceramente que essa independência conseguida através do suporte da própria comunidade é o único antídoto possível para podermos agir com mais liberdade dentro do sistema.”
e logo em seguida diz:
Mesmo que venhamos a partir de agora a negociar com anunciantes e patrocinadores, o fazemos de um outro lugar.
A que lugar exatamente você esta se referindo?
Se você consegue manter o Canal com o suporte daqueles que por hora acreditam no sítio, por que precisa ampliar para satisfazer aos muitos que “ainda não acreditam no Canal e só o farão quando o institucionalizarmos com um logotipo de uma empresa - trata-se de um vício profissional!?”
Como poderemos mudar a expectativa das pessoas e os seus padrões mentais se não tivermos paciência de construir e manter uma outra maneira de fazer as coisas?
O que você chama de vício profissional eu chamo de Visão Manufaturada. Uma visão que foi construída ao longo dos últimos 50 anos... não se pode esperar que a mudança seja da noite para o dia..
Mas também não se pode esperar nenhuma mudança quando se aceita o patrocínio da Petrobrás e afirma-se que:
“precisa continuar a fortalecer o investimento feito pela comunidade, pois é nesse contexto que vamos poder transformar a relação com os grandões. Já negociando com um patrocinador poderoso como a Petrobras, é possível perceber a diferença de postura, um certo respeito pelos 500 assinantes do Canal Contemporâneo”
Esse grandão ao qual você se refere na verdade tem um papel imperialista muito preocupante na América Latina e faria muito mais em pagar as indenisações por vazamentos, contaminações, danos ecológicos, etc do que investir em Art Wash....
Aceitar patrocínio de uma empresa que esta profundamente envolvida nas negociações vergonhosas de privatização do gás da Bolívia, e que é a sua maior beneficiária é tudo menos algo a que se deva ter orgulho... muito pelo contrário, é um retrocesso. É fazer exatamente o que o sistema espera que façamos, é manter tudo do jeito que sempre foi...Um sítio de informação de arte na Internet em si não é inovador se não utilizar métodos novos. Resistir ao patrocínio corporativo nas artes é algo extremamente novo nesse país, nesse momento....
É como se nos tornássemos visíveis para eles a partir dessa participação quantificada. São pessoas que só sabem lidar com números e essa é uma forma de traduzir para eles a nossa importância (nossa mesmo e não a que eles querem que tenhamos).
O Canal e seus assinantes não se tornaram visíveis para eles Patrícia, apenas tornaram-se úteis para a empresa.
Vamos ver na prática o que virá...
Um abraço Patrícia,
Ana Amorim
A Resposta da Patrícia: 02/06/2005 Ana, Estou navegando e acabo de me deparar no seu blog com a correspondência do Canal. Me surpreendi, pois você nunca avisou que a mesma seria publicada e ainda encontrei uma resposta sua que nunca recebi... Gostaria de fazer alguns comentários a essa sua resposta e te pedir que ela seja adicionada ao blog. [Se você consegue manter o Canal com o suporte daqueles que por hora acreditam no sítio, por que precisa ampliar para satisfazer aos muitos que “ainda não acreditam no Canal e só o farão quando o institucionalizarmos com um logotipo de uma empresa - trata-se de um vício profissional!?”] Em primeiro lugar, a independência conseguida através do suporte da própria comunidade, ainda é maneira de falar! Vamos fazer 3 anos do programa de assinaturas e, nesse período, as demandas da comunidade cresceram muita mais do que essas contribuições, junto com os portfolios, vendas na livraria, banners publicitários e participações em exposições. Ou seja, juntando todas as fontes de recursos do Canal, ainda temos um quadro deficitário e, portanto, continuo injetando recursos próprios para manter essa comunidade atuante. Quando comento que uma parcela só contribuirá quando perceber uma certa institucionalização do Canal, ficou faltando comentar as outras modalidades. Algumas pessoas só contribuirão quando perceber uma vantagem significativa e direta para isso. Outras, por falta de dinheiro, como é o caso da maioria de nossas instituições, só o farão quando for absolutamente obrigatório. E por aí vai. São várias facetas e diversas nuances a respeito dessa ação humana relativa ao investimento ou troca. Quando você conclui que usaremos recursos de patrocínios para "satisfazer" a certas pessoas está demonstrando um julgamento muito equivocado tanto das necessidades políticas quanto econômicas do Canal Contemporâneo. [Como poderemos mudar a expectativa das pessoas e os seus padrões mentais se não tivermos paciência de construir e manter uma outra maneira de fazer as coisas?] Primeiro, temos que existir para construir e efetivar transformações. Por enquanto, o Canal apenas sobrevive. [O que você chama de vício profissional eu chamo de Visão Manufaturada. Uma visão que foi construída ao longo dos últimos 50 anos... não se pode esperar que a mudança seja da noite para o dia..] Claro que as mudanças não são rápidas e por isso a obsessão em permanecer vivo! [Mas também não se pode esperar nenhuma mudança quando se aceita o patrocínio da Petrobrás e afirma-se que...] Você já se deu conta de quando você julga e afirma isso, você está descartando a possibilidade de ser surpreendida por algo que você não imaginou ser possível? [O Canal e seus assinantes não se tornaram visíveis para eles Patrícia, apenas tornaram-se úteis para a empresa.] Não entendo, você mesma escreveu para o Canal dizendo que pagava a assinatura porque imaginava que ele seria útil para você na hora de você publicar... Então, porque você imaginaria que a Petrobras faria diferente? Os patrocinadores adentram a nossa comunidade digital como todos os segmentos, que fazem parte de nosso sistema de arte, e contaminarão e serão contaminados pelas relações construídas pela arte e pelo pensamento crítico dentro dessa comunidade. Quanto as transformações possíveis, reproduzo um pequeno texto meu publicado num Hora de crescer no seu início em 2002. Um abraço, Patricia Canetti A minha resposta: Ola Patrícia, Eu enviei a resposta à voce, e na verdade me surpreendi de voce não ter feito nenhum comentário. Quanto à publicação da correspondência eu raramente peço permissão, mas se isso for um problema eu posso retirar a publicação. Desculpe se isso te causou qualquer mal estar. No futuro irei tomar o cuidado de te enviar a email e aguardar uma resposta antes de publicar. Não estou criticando voce Patrícia, nem os seus esforços com o Canal, entendo as dificuldades que voce enfrenta. Estou criticando a Petrobrás e a iniciativa de deixar que essa empresa patrocine o site. Pra mim são duas coisas diferentes. Não tenho nenhuma ilusão com relação à corporações, elas não são indivíduos, mesmo tendo tal status, e gozando dos mesmos privilégios. A crítica da inserção corporativa no mundo da cultura e das artes é uma das raízes do meu trabalho. Estou trabalhando um ângulo dentro da questão, não o todo... Vou incluir essa nossa última troca de emails. Um abraço, Ana Resposta da Patrícia: Oi Ana, Estou acostumada a ver meus textos replicados pela rede, da mesma maneira que publico os de outrens, mas considero ainda a correspondência no âmbito do particular, e, por isso, sempre peço permissão aos envolvidos antes de publicá-las. De modo algum, seria o caso de retirar a publicação de nossa correspondência, mas apenas considero que a decisão da publicação do que é pessoal deva ser compartilhada. Entendo que por você trabalhar com cartas, você tenha uma outra relação com a coisa... Em relação às corporações, vejo-as com características de indivíduos e coletivos. Assim como percebo características de coletivos e corporações nos indivíduos. Acho que existem certas características humanas boas e ruins que se apresentam nessas várias dimensões. Quando você critica o sistema de arte por compactuar com as políticas sujas das grandes corporações, percebo que existe uma conexão entre todos nós, indivíduos, sistema e corporações, que se encontram nessas características comuns. Afinal, egoísmo e egocentrismo, se por um lado geram focos e trabalhos relevantes, sempre levam a essa falta de sensibilidade para o todo. Um abraço, Patricia

Comments