Esta carta será enviada a artistas, centros de arte, curadores, movimentos sociais, ativistas e pessoas em geral.
“Quem tem uma antena parabólica imensa recebe uma informação enorme e, talvez, caótica, do ponto de vista cultural. (...) Você é de um grande centro e quer resgatar uma cultura local, mas eles não estão a fim disso. Eles estão atrás de novidades. Na medida em que eles escolhem uma Nike, eles estão querendo escolher símbolos de fora do universo deles. De repente, você quer o vernacular, mas eles não querem o vernacular”.
Araci Amaral - Revista Trópico
Caro Gilberto Dimenstein,
A Nike no dia 24 de fevereiro fez o lançamento Internacional de sua nova coleção aqui em São Paulo, na OCA. Li muita coisa falando sobre o grande potencial desse lançamento para o mercado brasileiro. O motivo desta carta é sobre a parceria entre a Nike e os alunos da Cidade Escola Aprendiz da qual você é o diretor.
A Cidade Escola Aprendiz me parece, é uma ONG voltada para a “formação de jovens, com o objetivo de qualificá-los através da comunicação, tecnologia e arte/intervenção urbana, criando murais, mosaicos e outros trabalhos de arte em áreas públicas dentro e nas redondezas de São Paulo”.
Nessa parceria com a Nike os jovens desenvolveram desenhos para camisetas sobre o significado dos cinco temas da cultura do futebol:
- Ginga - a arte do movimento;
- Futebol de praia - o jogo na praia;
- Pelada - o jogo na rua;
- Favela - o jogo em terreno de terra e a
- Confederação Brasileira de Futebol - a Seleção Brasileira.
Como uma ONG que conta com profissionais informados e sérios pode envolver adolescentes num projeto de trabalho com uma empresa que conta com um histórico de exploração dos trabalhadores através de salários de fome, linhas de produção “boot camp” (1), trabalho infantil, abusos e por não permitir monitoramento independente de suas fábricas como a Nike?
Uma empresa que é boicotada e processada sistematicamente no Norte.
Como podemos estar tão a margem das questões reais que estão sendo debatidas no mundo?
A Nike cuja imagem nos últimos dez anos vem sofrendo sérios ataques de ONGs e organizações internacionais de proteção aos trabalhadores e de ativistas antiglobalização decide lançar a sua campanha internacional por estas bandas e é recebida de braços abertos. Sem nenhum questionamento.
Como podemos estar tão a margem...?
Em outro cenário, em uma das sessões da revista da Trópico, a artista Mônica Nador narrou um episódio ocorrido no Amazonas:
“A primeira coisa que rolou foi que o carinha que mora na palafita (em habitações de madeira construídas sobre a água) e que não tem nada, a não ser aquela paisagem maravilhosa da beira do rio Purus, um céu maravilhoso e uma parabólica deste tamanho, desenhou um símbolo da Nike. Eu fiquei totalmente triste. Ele não vai ter nada da Nike, nunca, a não ser o símbolo. Fazer a Nike? Ah, não, não vale. Eu proíbo. Agora eu já chego falando assim: ‘Ó, a gente vai desenhar, mas eu quero que vocês desenhem, sei lá, coisas que tenham na casa de vocês e de que vocês gostem’”
A Mônica esta certa quando sente muita tristeza em ver que uma pessoa tão distante já é controlada pelas estratégias e campanhas do mercado. Mas a Aracy acerta em cheio quando diz que, não permitir que as pessoas usem o símbolo da Nike é dirigismo cultural... por que a Nike, a Monsanto e tantas outras estão fazendo exatamente isto, estão se tornando parte da nossa cultura, especialmente quando ONGs que trabalham para a reconstrução da identidade aceitam que seus alunos trabalhem para obter a mais legítima observação de suas vidas e histórias e transformá-las em produto que se descarta tão rápido quanto os meninos usados para desenvolver os desenhos.
A Nike decide trabalhar a sua imagem através de parcerias com ONGs que trabalham com jovens das periferias. O que essa empresa atinge é uma nova forma de “lavagem social” onde a Nike se apresenta como uma organização que trabalha para acabar com a pobreza.
Não deveríamos estar discutindo com esses meninos as reais responsabilidades dessas transnacionais pela situação de pobreza em que se encontram? E aí produzir camisetas com as idéias geradas?
Num mundo globalizado, não devemos discutir quais os significados e as implicações quando a Nike decide Branding (2) um dos nossos elementos culturais mais fortes?
O que realmente esses meninos aprenderam ao trabalhar pra Nike que não teriam aprendido sem ela?
Esse meninos sabem que seus produtos vão ser vendidos a preços que ninguém na sua comunidade pode pagar?
Para evitar o dirigismo cultural a única maneira é trabalhar por um longo período desfazendo o pensar manufaturado que as grandes corporações gastam milhões para construir em nossas mentes...
Isso tem que ser feito.
Há de chegar o dia em que não poderemos mais protestar contra a apropriação do espaço cultural público pelas corporações. Se não resistirmos agora, muito em breve será tarde demais.
A Monica Nador diz que desconfia de tudo que é muito sério... isso se aplica a corporações que com o puro objetivo de maximizar o lucro de seus acionistas, estão se infiltrando em todos os aspectos da vida tornando-se parte integrante e fundamental do todo.
Foi lamentável que esse trabalho tenha sido feito, mas ainda é tempo de trabalhar com os alunos envolvidos e informá-los sobre a Nike e suas atividades. E acima de tudo o que essas empresas entendem são números, se não comprarmos os seus produtos elas entenderão a mensagem.
É realmente lamentável que a Cidade Escola Aprendiz tenha permitido essa parceria.
Atenciosamente,
Ana Amorim
Alguma literatura no assunto:
(em Inglês)
(1) Boot-camp: na linha de produção “boot camp” os trabalhadores são submetidos a punições físicas e humilhações nas fábricas da Nike no Vietnan, sul da China e Indonésia. exemplos de punição física incluem os supervisores baterem na cabeça dos trabalhadores, colocarem fita durex na suas bocas por conversarem, serem forçados a ficar de pé no sol ou ajoelhar com as mãos para o alto por longos períodos, e ter que limpar os banheiros ou varrer o chão das fábricas como punição.
(2) Branding: Marca registrada ou nome que identifica um produto ou uma marca.

Estamos todos aguardando a sua resposta ansiosamente Gilberto.
Posted by: Marcus Fredes | 11/10/2006 at 11:05
Onde está a resposta de Gilberto Dimenstein?
Posted by: Maria Cândida Ferreira de Almeida | 05/09/2006 at 21:34