Correspondência com Tininha do coletivo GIA
Olá Ana,
Tenho lido suas cartas. Gosto da forma como organiza as idéias e de ser uma mulher firme nos seus ideais. O arquivo em anexo é sobre o meio independente que queremos fomentar aqui em Salvador.
Quando digo queremos, significa que faço parte de um coletivo de artistas que pesquisa e trabalha com a discussão sobre a ampliação de novos meios de diálogo artístico, independência do artista em relação aos Museus e a utilização do espaço "público" com interlocutor das idéias. Se tiver interesse gostaria de saber mais sobre o seu trabalho. Também utilizamos os meios alternativos para divulgação de propostas e ações. Esse evento acontecerá em Salvador, e precisamos espalhar seu regulamento por todo o país, se interessar e puder divulgar de alguma forma seria excelente. E contamos com a sua participação,
Abraços,
Tininha Llanos
GIA Grupo de Interferência Ambiental
Minha resposta
Ola Tininha,
Bom, eu já havia recebido informação sobre o m.a.i.o. mas ainda não havia me decidido se iria me inscrever ou não. Como você já deve estar ciente uma questão muito importante no meu trabalho é a questão patrocínio/apoio cultural/ou qualquer outro termo que defina o uso e a apropriação da arte por interesses corporativos . Eu não exponho em eventos que promovam grandes grupos econômicos, transnacionais . Para qualquer outro tipo de patrocínio eu me reservo o direito de pesquisar a origem antes de me comprometer. Mas em tese eu não me oponho a patrocínios locais (pequenas empresas, negócios locais). O weblog “Cartas ao Sistema de Arte" foi uma forma que eu encontrei de ampliar a discussão do método de distribuição do trabalho artístico. Esse método se iniciou com o "Contrato de Arte” que por sua natureza restritiva impossibilitou essa discussão em espaços oficiais. Você disse que gostaria de saber mais sobre o meu trabalho.
Ele se divide em duas partes no momento.
1. A discussão sobre a distribuição de arte – como esta chega até as pessoas e os interesses que atuam como mediadores, filtros e em última análise censores dessa distribuição.
2. O trabalho de pesquisa propriamente dita onde em 1988 determinei que o meu viver é arte, e decidi que a coleta de evidência desse estar viva no mundo iria ser o produto do processo que só irá se encerrar, em última análise, quando eu morrer. Iniciei esse processo exclusivamente voltada para a minha vida , registrando diariamente pequenos mapas mentais do meu caminhar durante o dia. Lentamente fui descentralizando esse interesse pela minha vida e me voltando mais e mais para o viver de todas as pessoas.Nesse processo fui me politizando (o viver de todos é extremamente político) e radicalizando.
Passei por vários estágios que não vou desenvolver , mas atualmente estudo a mídia que, acredito ser, a manifestação pública mais evidente e óbvia do controle e mediação de interesses privados. Esse ano estou estudando o Poder e o New Global Apartheid (Nova segregação global) e como ele se manifesta na linguagem - escrita e visual da mídia.
Esses trabalhos, na verdade, estão se configurando mais e mais como um espaço de pesquisa e reflexão que informam as minhas discussões sobre a distribuição da arte. Em linhas gerais, e provavelmente muito vagas esses são os elementos conceituais que estou desenvolvendo no momento. Se você quiser saber mais é só escrever e eu posso desenvolver em mais detalhes.
Agradeço muito o seu contato, a maior parte do tempo esse trabalho é extremamente solitário e árduo, e ainda não provoca uma ressonância nas pessoas.
Um abraço,
Ana Amorim
Resposta da Tininha:
Olá Ana,
Pois foi exatamente o seu questionamento através das cartas ao sistema de arte que me interessou. Nossa pesquisa está relacionada com os meios não comprometidos de atuação poética, o próprio espaço dito "público", local onde deveríamos poder usar livremente, anda bastante censurado, decerto pela formatação da vivência humana. Acredito que a arte hoje fala de diversas formas, mas deve falar a todos, a ferramenta para mim não importa, mas pode instalar-se em qualquer lugar, e não apenas em lugares públicos/privados como museus e galerias em que quase sempre não se permite opinar ou transgredir. Lembro-me da última Bienal, quando o Gene do GIA estava por aí em Sampa, e decidimos entrar pelo "vazador" do Rubens Mano, embora este não tivesse sido divulgado pela mídia a pedido da produção da Bienal, com razão "para eles". Conseguimos informações do próprio artista e este decidiu acatar essa imposição da produção e por isso divulgou de forma independente (nessas horas, viva a Internet). Nós, como crianças caminhamos em volta do pavilhão, até encontrarmos a tal obra. Mas ela estava fechada com um tapume e com um trinco na porta de vidro. Retiramos o tapume que "proibia" a obra. E avistamos uma criança lá dentro que curiosa resolveu ir ao nosso encontro e destrancar a obra. Foi a maior festa, o povo todo começou entrar, até que baixou a segurança... Mas aí justificamos, queríamos mesmo confusão. Onde já se viu tirar-nos o direito de fruir!!! Tudo bem, mas qual é o papel mesmo da Bienal heim? É ficou esquisito. Daí, adoro artistas que gostem de contestar - embasados!- estes tais veículos. E através de cartas... não há nada mais libertário. Continuo te convidando para esse evento comemorativo que chamamos de salão. O Salão de m.a.i.o. é quase imaginário. Mas existe um horizonte. Não temos qualquer patrocínio a não ser o de nossos pais e
do nosso próprio trabalho, além do espaço de todos que é a rua. Ah, mas os registros serão patrocinados pelas lojas do ramo aqui de
Salvador, além da UFBa. Nosso desejo é contribuir com o meio de arte de Salvador. (que está comprometido com Toninho Malvadeza vulgo ACM, até o último pingo de tinta) Apesar de MAM, Museu Rodin e tal. Querida, foi um prazer receber seu retorno, agradeço,
Trocamos mais palavras em breve,
Abraços, Axé,
Tininha Llanos
GIA
Grupo de Interferência Ambiental
Minha resposta:
Oi Tininha,
Você disse que: a sua pesquisa está relacionada com os meios não comprometidos de atuação poética, o próprio espaço dito "público", local onde deveríamos poder usar livremente, anda bastante censurado,...
A meu ver o espaço publico esta sendo privatizado. A arte bem como a vida como um todo estão sendo privatizadas. E portanto a pessoa surge nesse cenário como consumidor e não como um elemento do diálogo.
Tudo bem, mas qual é o papel mesmo da Bienal heim?
Eu escrevi sobre isso um pouquinho antes, a Bienal é uma questão de Relações Exteriores para ser decidida por embaixadas...
Continuo te convidando para esse evento comemorativo que chamamos de salão.
Se você quer usar o blog do Cartas ao Sistema de Arte você pode usar, mas eu não tenho tempo para preencher formulários no momento.Estou fazendo muitas traduções para uma conferencia de camponeses em Junho.
Agora se os registros serão patrocinados por alguma grande cadeia de lojas eu não aceito fazer parte, mas se são apenas lojas locais não há problema. Você precisa esclarecer isso comigo antes de usar o weblog.
Querida, foi um prazer receber seu retorno, agradeço,
Trocamos mais palavras em breve,
Igualmente Tininha.
Um abraço,
Ana
Resposta Tininha:
Saudações Ana,
"A meu ver o espaço publico esta sendo privatizado."
Por isso insistimos em torná-lo um pouco mais livre, pois não nos interessa mostrar o que produzimos somente para um meio específico de arte, mas também e com maior intensidade para aqueles que não reconhecem como arte o que apresentamos nas ruas, e nesse caso o espaço público, ou os lugares tidos como não-lugares, acabam sendo a única alternativa para que essas tentativas se tornem práticas cotidianas, exercícios estéticos, de desprogramação visual. Retirar essa programação de nossas vidas é uma utopia, mas não há nada para mim e para os meus amigos que instigue tanto que não ter uma plaquinha dizendo "Isto é uma performance!".
Aqui em Salvador, ACM tem transformado todas as praças em locais privatizados,isso é uma tendência que só trará efeitos negativos para a própria sociedade burguesa soteropolitana, pois separando as classes sociais, apartando a diversidade, vai se criando ódio e intolerância. Aqui isso é bem visível. Sou branca (em relação a popul. baiana) e meu namorado é negro. Na cidade mais negra do Brasil, ainda sofro retaliações... Não importa!
Ah, patrocínio... Será que grandes empresas patrocinam eventos de caráter sociológico, libertário?...
Não temos patrocinadores.Parcerias sim.
Ah, Dona Ana do bar vai dar uma feijoada, ela é parceria.(Vai vender cerveja Brama, Antártica, Skol...)
Nossos amigos vão fotografar com filmes Kodak e Fuji, quem vai
comprar é a UFBA nossa parceria.
Tudo isso!!!
Querida, é uma prazer trocar com vc,
Tininha
Minha resposta:
Oi Tininha,
...mas não há nada para mim e para os meus amigos que instigue tanto que não ter uma plaquinha dizendo “Isto é uma performance!".
Eu comecei fazendo performances que buscavam exatamente isso. Dar liberdade para as pessoas verem ou não o trabalho.
As "cartas" na verdade são performances que trabalham exatamente assim. Eu envio por e-mail cada carta e a pessoa pode deletar, bloquear o meu endereço, ou ler. Uma vez ou outra eu fico sabendo de pequenas performances que ocorreram em consequência da carta. E tudo isso é feito sem mediação nenhuma, sem documentação e controle.
Não é muito mas aqui em Salvador, ACM tem transformado todas as praças em locais privatizados, isso é uma tendência que só trará efeitos negativos para a própria sociedade burguesa soteropolitana, pois separando as classes sociais, apartando a diversidade, vai se criando ódio e intolerância.
Mas se não fosse o ACM seria algum grupo financeiro, ou alguma seguradora, esta ocorrendo uma privatização da vida, do coletivo. Me parece que os ACMs da vida são espertos o suficiente para pegar uma carona nesse processo. Mas, existe algo ainda maior que os ACMs, um sistema que em última instância deixa os ACMs existirem, como tubarões pequenos e ainda ganha em cima deles.
Quanto à sociedade burguesa soteropolitana, ela simplesmente vai se armar mais, construir paredes mais altas, botar mais polícia na rua, matar mais jovens pobres, levar mais dinheiro pros paraísos fiscais, etc. O problema não são esses abutres, o problema é o que acontece com as pessoas normais que ficam encurraladas num ciclo de violência e trabalho semi-escravo que não lhes permite se organizar para lutar contra esse estado de coisas.
Me parece que no futuro teremos apenas dois grupos no mundo: os consumidores e os não consumidores. Os primeiros terão acesso a tudo de melhor que se pode produzir e os segundos estarão trabalhando por salários que não lhes garantem nem a sobrevivência. O artista nesse cenário estará trabalhando apenas para esse grupo seleto e provavelmente fará parte do mesmo grupo.
O meu trabalho objetiva resistir esse processo. Eu acho que essa resistência tem que ter muitas formas e muitos atores para que possa realmente atingir resultados.
Ah, patrocínio... Será que grandes empresas patrocinam eventos de caráter sociológico, libertário?...
Sim. Corporações usam arte para polir a sua imagem, para trabalhar algo muito sutil na psique humana que é a confiança.
Não temos patrocinadores.Parcerias sim.
Se você quiser usar as Cartas ao Sistema de Arte não vejo problema nenhum. Não sei como você poderia usar o weblog, mas se você encontrar um jeito, pode usar.
Talvez eu queira publicar essa correspondência que tivemos, você se importa?
Ah, Dona Ana do bar vai dar uma feijoada, ela é parceria.(Vai vender cerveja Brama, Antártica, Skol...) Nossos amigos vão fotografar com filmes Kodak e Fuji, ...
Eu não me importo com o que você usa, é lógico que nós usamos logos o tempo todo. Eu acho que o trabalho artístico não existe para ser um veículo de publicidade ou Relações Públicas. Agora dependendo da estratégia eles podem até ser usados para veicular um conceito. Todas as estratégias são válidas. Eu apenas escolhi uma das possibilidades.
Me avise o que é que você fez com o blog...
Um abraço,
Ana
PS: O que aconteceu com o endereço - www.gia71.kit.net ?
Resposta da Tininha:
oi Ana,
Pode usar sim nossas correspondências.Tenho também uma idéia para elas, conto logo mais.
Ah, o endereço na internet ficou desatualizado, foi feito todo em flash e quem sabia manipular esse programa se afastou do grupo, estamos agora produzindo um site em html mesmo, ficaremos mais livres para manipular nossas imagens e textos.
=================
Estou pensando em utilizar essas nossas correspondências aqui também, o que vc acha?
Estou querendo mandar muitas cartas para mim mesma, e depois ao recebê-las lacradas distribuí-las nas portas de cinemas, teatros, e "talvez" em museus. Serão cartas em meu nome, mas que estarei expondo para qualquer um ler. Acho que nossas correspondências serão válidas. Quero através dessa curiosidade que instiga as pessoas, através do poder de infiltrar-se no universo alheio, permitir leituras indeterminadas, de interesse e resultados desconhecidos.
Vale o que você pensa.
Sobre o salão de maio, estamos agora bastante empenhados para montar e executar as interferências.
Acho que é o bastante,
Axé,
Abraço,
Tininha Llanos
Resposta:
Oi Tininha,
Me mande o novo site quando estiver pronto.
Estou pensando em utilizar essas nossas correspondências aqui também, o que vc acha? Estou querendo mandar muitas cartas para mim mesma, e depois ao recebê-las lacradas distribuí-las nas portas de cinemas, teatros, e "talvez" em museus.
Esse trabalho pode ser muito poético.
Voce pode usar qualquer material meu das "Cartas ao Sistema de Arte" se voce quizer.
Boa sorte com o evento.
Um abraço,
Ana

Comments